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Ronald MouraRonald Moura Marketing | Comunicação

O pra sempre no mundo digital tem data de validade

Tenho pensado bastante em um vídeo que a criadora Liliam Farrish postou, onde ela fala sobre a “desmaterialização da cultura em tempos de tecnofeudalismo” e apesar desses nomes enormes e assustadores, ela explica de forma didática que estamos passando por um processo de substituição da posse pelo acesso.

Mas o que significa isso?

Duas lembranças de infância vão me ajudar a explicar. A primeira é de ir com a minha mãe às sextas-feiras na locadora de vídeo do nosso bairro para alugar filmes para passar o final de semana. O quanto ficávamos entretidas lendo as sinopses dos títulos de drama com atores famosos na capa. Era um momento especial nosso e apreciávamos muito aquelas horas de escolha. Anos mais tarde comprávamos os preferidos quando estava em promoção nas Lojas Americanas. Depois minha mãe virou craque em baixar não só filmes, mas as nossas séries e deixava tudo no pen drive para conectar com a TV. Você consegue perceber que tinha um apego emocional com o que consumíamos?

Quando veio a Netflix e os outros streamings, apesar de um catálogo muito maior do que o da nossa antiga locadora do bairro, a gente passou a pagar mensalmente não para ter e guardar e sim para acessar quando quisermos. Acontece que se parar de pagar, não vamos mais assistir. O que nos torna dependentes de inúmeras assinaturas mensais e com a variedade, acaba que nem absorvemos tudo aquilo que estamos acessando.

A outra lembrança é a caixa de fotos de família que minha mãe e Tia Regina tem guardada na parte de cima do guarda-roupa. Com uma centena de fotos minhas de quando eu era bebê e toda a vida boêmia das duas quando eram jovens, sempre mostramos para as visitas quando temos chance. Pegar nas fotos já um pouco amareladas por causa do tempo, passar de dez em dez para a próxima pessoa tem seu valor. Mas claro as coisas mudam, tudo se atualiza, não é verdade?

Lembra quando a gente podia apenas colocar 12 fotos em um álbum do Orkut? Quando paramos de usar câmeras com filme e conseguíamos passar as imagens de forma rápida através de um cabo para o computador, era emocionante pensar que elas estariam ali para sempre. Eu com 14 anos com minhas amigas no shopping, achando que estávamos eternizando nossos momentos adolescentes com o flash estourado na frente do espelho. Ainda ríamos quando acessávamos o Flogão e dava para relembrar das festas e bobeiras com um clique. Aí o Orkut acabou e com ele se foram todos os depoimentos, comunidades, scraps… Tudo sumiu.

Mas tudo bem, porque veio o Facebook e com a possibilidade de ter cinco mil amigos, também veio a de publicar incontáveis fotos. Essas fotos ainda estão lá, mas fomos migrando para o Instagram, Snapchat, TikTok, YouTube. Produzindo muito conteúdo, compartilhando nossa história, construindo comunidades, monetizando, nos descobrindo em novas profissões, trabalhando para as plataformas. E nisso tudo, quando um CEO decide vender seu aplicativo e essas grandes empresas de tecnologia deixam de existir, o que de fato fica com a gente?

Isso não é só sobre como a gente cria, mas também como a gente se relaciona entre si, consome e lida com a arte e cultura atualmente. E como tudo isso tá dentro desse movimento que de acordo com especialistas, substitui o capitalismo.

Sobre a carreira de influencer

Não é assustador imaginar que esse mercado de influência, onde muitos se especializam, largam o emprego CLT, aposentam a família, pode acabar?

Por isso que é muito importante não apostar todas as fichas em uma única máquina e ir trabalhando as suas opções. Penso nisso constantemente, já que estou há quase 10 anos com meu perfil no ar falando sobre autoestima. Eu não sou um caso viral e muito menos consegui a minha independência financeira através da internet. Mas mesmo assim, existe muito esforço em tudo que eu construí na minha trajetória online, que me trouxeram alguns frutos, oportunidades legais e um reconhecimento local que eu valorizo. Eu sei que se uma dessas redes morrerem, eu tenho meu diploma em Jornalismo e posso ir bater na porta das TVs e Jornais para pedir um emprego. Se você sonha com essa carreira e em fazer milhões com publis, eu não quero te desencorajar, mas vale a pena ter um plano B, C e D.

Camila Hilário

Camila Hilário é jornalista, modelo e influenciadora com mais de 7 anos de atuação em autoestima. Criadora de conteúdos profundos e reais, já trabalhou com marcas como O Boticário, Avon, DOVE, Magazine Luiza, entre outras. É idealizadora de projetos como Negritude Piauiense e Deixe-me Ser, que promoveram a valorização da estética negra e do amor próprio feminino.

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