
Fiquei pensando em um dos meus filmes favoritos do Jim Carrey e me veio o questionamento: estamos prontos para consumir conteúdos reais?
Já faz uns bons anos em que reclamamos (eu inclusa) da estética do desempenho. Quem tem o dia mais produtivo, a viagem mais perfeita e o corpo dos sonhos. Para tomar café, organizamos cuidadosamente a mesa, a colher, a toalha. Para o conteúdo de rotina, posiciona-se a câmera, dá o play e deita novamente para acordar bonita para dar início às atividades de um dia que já iniciou há horas. E não só as mulheres que fazem isso, tá? Existe um nicho de homens que colocam o rosto em uma bacia de gelo ás 04h00min da manhã, treinam, fazem skincare, cuidam dos negócios, leem a bíblia e dormem 8 da noite. Claro que em nenhum momento nós somos autorizados a dar uma olhada no que ele realmente faz antes de colocar a câmera no banheiro, não o vemos frustrado pagando contas, e nem como ele se relaciona com as mulheres que só aparecem servindo.
Esse mesmo conteúdo, lotado de publicidade indireta, viralizou por ser ridiculamente falso. Qual é o trabalho dele? É justamente fazer com que a gente acredite que essa é a sua rotina. Acontece o mesmo com as esposas tradicionais quando compartilham como cuidam de suas crianças, fazem toda a comida sem ajuda de processados e eletrodomésticos e ainda estão sempre felizes e satisfeitas. Elas estão determinadas a convencer mulheres jovens que quando se tem um marido para prover e uma família para cuidar, você não precisa de um emprego. Mas adivinhe qual é o emprego dela? Justamente criar esse conteúdo, onde ela é monetizada e conta com uma equipe por trás.
Então vamos lá, nesses casos, a maioria de nós entendeu que não é isso que queremos consumir. Só que ainda precisamos nos educar para apreciar a humanidade dos outros. Eu sei que eu fico desesperada, com autoestima baixa e deixo a louça por uns dois dias na pia da minha casa. Mas eu genuinamente quero seguir alguém que faz o mesmo? Eu estou pronta para ver os meus comportamentos destrutivos refletidos no outro? Ou eu quero continuar vivendo na fantasia de que é só eu pedir para Deus que ele vai me dar uma mansão igual a do meu influenciador preferido.
Se você já assistiu ao Show do Truman, sabe que o personagem que dá nome ao filme está aprisionado naquela vida arquitetada especialmente para ele, sendo induzido por publicidades e personagens a sentir o que o diretor acha que é o que o público quer ver, você acha que esse mesmo público que dizia o amar estaria pronto para vê-lo cometer os próprios erros fora da produção de uma cidade perfeita?
Talvez o abandonássemos pela vontade que temos de fugir de nós mesmos. O quanto de verdade existe nas nossas palavras quando clamamos o fim da ilusão e o começo da autenticidade? A meu ver, a porcentagem ainda é pequena.


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